O ladrão de mim
O que vejo ao abrir os olhos da alma?
Vejo o espelho, o revelador espelho
A mostrar-me que o tempo me consome...
O tempo, este ladrão pés de veludo
Que escava sulcos em minha tez
Por onde escorrem meus dias
Em direção a um abismo...
Oh tempo, companheiro de noites enluaradas
Que banham de prata meus cabelos
Enquanto corroe minha esperança, meu afã
E rouba minha juventude e firmeza dos passos
Depositando no fundo de minha alma
Lembranças, experiências, imagens e sabor
Que um dia vi, degustei, adquiri, senti e vivi.
Oh tempo...
Velho escultor entre os escultores
Pois só mesmo tu podes mesmo esculpir
Nas lembranças, esculturas e efígies...
De emoção, alegrias, amores e dissabores
Em exposição permanente em tua galeria
Que acesso para reviver seus cheiros e sabores.
Oh tempo, grande sacana!
Escondeste de mim a sabedoria
E turvaste com enganos os olhos da alma
Enquanto percorria a juventude acelerado
Entendo-te! foste sábio e comiserado
Não se dá demasiado combustível
Para quem está inda tão despreparado.
Mas, nesta altura da comédia humana, oh tempo...
Encaro-te frente a frente, olhos nos olhos
Pois se não posso domá-lo, pará-lo e atrasá-lo
Tenho de aprender amá-lo e a devorá-lo
Enquanto me consome, eu também te consumo
E assim vamos até o dia em que terás me consumido
E continuarás pela eternidade, enquanto eu jazo consumido.
22/01/2010
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