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Era ela (um conto)

Era ela.
            O sonho dela, o sono dela, o riso cada vez mais riso e nítido o riso dela.
            Era ela.
            O tráfego era ela. O caminho era ela. O desejo por uma nova solução, a solução dela. A infância dela.
            Todos queriam um beijo e a boca pertencia a ela.
            Um pensamento não pensado, uma estrela a iluminar o caminho dela. Tudo ela.
            E foi ela e ele. No princípio ele por ela. Ela por ele. Um par perfeito, um dueto invejado, plagiado, amantes, sorrisos e abraços. O braço dele nela e o braço dela nele.
            Eram eles. Os sonhos deles. Deles o sono. O riso grandioso, grandioso riso deles.
            E cada vez mais ele que ela e ela cansando dele. O medo de perdê-lo. O medo de não tê-lo sem saber que a ele já não tinha.
            Já não era nem ela nem ele.
            O dia dela?
            O dia dele?
            A mãe dela? O pai dele.
            O dinheiro dele separado do dinheiro dela. A família dele no natal deles e a dela numa eventual celebração sem ela.
            Cada vez menos eles. Ela esquecia-se dos sonhos. Os sonhos dela. Ele ignorando o que vinha daquela boca, o beijo dela, os risos, a voz suave e rouca, de seu coração os sonhos que antes tinha “os sonhos que ora eram ela e ele, dela e dele”.
            E foi ela pela rua. E foi o trânsito. Foi a curva. Foi o carro. Foi bolsa de um lado. Foi ela de outro. Foram graves feridas e foi muito triste a morte dela.
            O sonho dela?
            Onde está ele?
            O riso dela: parca lembrança no passado dele. 

 

Mauro Marcel
09/02/2010